Se quisermos ser objectivos, o Natal é apenas um dia do calendário. No entanto, para todos nós, o Natal é muito mais…

Nas diversas culturas de todo o mundo as estações do ano, as datas religiosas ou épicas são celebradas e evocadas de forma particular e significativa. Estes marcos no calendário organizam-nos, mobilizam-nos e dão sentido às nossas vidas. Precisamos de momentos onde os rituais, os gestos partilhados, as memórias colectivas nos façam sentir em comunhão com os outros.

No mundo actual, onde o tempo corre, a globalização impera e a publicidade nos invade somos levados a reduzir o Natal a meia dúzia de chavões mediáticos que misturam solidariedade amorfa, compulsão ao consumo e esteriotipização das celebrações.

Neste ano, em particular, é necessário que cada um de nós reflicta intimamente sobre o SEU Natal, com tudo o que ele tem de memórias afectivas, gestos simbólicos e transmissão de afectos.

Para mim o Natal é mandar postais artesanais aos amigos e família com mensagens e poemas escolhidos para cada um; é confeccionar lembranças originais para toda a família, é cuidar dos embrulhos tornado-os únicos, é fazer o bolo de Natal dos Açores no dia 8 de Dezembro e só comê-lo na consoada; é visitar ou telefonar durante todo o ano a quem está mais só; é ensinar às crianças que a emoção de dar prendas é igual a receber.

Para cada um de vós o Natal pode ser outra coisa qualquer… procurem no vosso íntimo e acima de tudo, envolvam as vossas crianças nessa vivência que é essencial na transmissão sólida dos vossos valores e crenças. Ensinem-lhes os gestos, os cheiros, as emoções, a ansiedade boa, as cantigas e cânticos, os sabores. E lembrem-lhes os que já cá não estão, os que estão longe, os que não conhecem mas também merecem o Natal, os que estão perto mas às vezes estão esquecidos, os de casa, os amigos, todos de quem gostamos.

Construamos cada um de nós o nosso Natal para que seja inesquecível.

Voto de Natal

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

David Mourão-Ferreira, in ‘Cancioneiro de Natal’

Maria João Faria (psicóloga do CPBESA)