Reabertura da Padaria Social
Em setembro deste ano a padaria social ‘Pão na Tua Mão’ recomeçou a sua atividade, nas instalações do Centro Paroquial, com a preciosa ajuda e formação da Ferneto.
Mais do que parceiros, são nossos Amigos…

Em setembro deste ano a padaria social ‘Pão na Tua Mão’ recomeçou a sua atividade, nas instalações do Centro Paroquial, com a preciosa ajuda e formação da Ferneto.
Mais do que parceiros, são nossos Amigos…

Recebemos da DELPHI em julho deste ano de 2020, um donativo para apoiar as nossas famílias com material informático.
O nosso Agradecimento à DELPHI – Semana da Excelência.
Foram Doados Computadores prontos a serem utilizados a pensar nas crianças que não têm acesso a estes equipamentos…Vão chegar às mãos de quem deles precisa!

Após longas semanas de confinamento vamos aos poucos regressando à normalidade.
Uma normalidade ainda tímida, tentativa e receosa, mas que pretendemos que seja plena a breve trecho.
Durante 7 semanas partilhei convosco ideias, reflexões e sugestões de conduta que espero terem sido úteis.
Com a reabertura dos nossos serviços já na próxima 2ª feira, voltarei a poder acompanhar presencialmente quer as crianças quer as famílias que necessitem do meu apoio. Sintam-se completamente à vontade para me contactarem!
À laia de despedida, deixo-vos um poema do escritor brasileiro Carlos Drumond de Andrade intitulado
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
Não cantaremos o ódio porque esse não existe,
Existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
O medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
O medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
Cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
Cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
Depois morreremos de medo
E sobre nossos túmulos nascerão flores
Amarelas e medrosas.

Maria João Faria (psicóloga do CPBESA)
O ser humano é um animal de hábitos, mas ao mesmo tempo tem uma grande capacidade de adaptação. Ao longo das nossas vidas, muitas coisas “primeiro estranham-se e depois entranham-se”.
Há praticamente dois meses fomos confrontados com uma mudança abrupta dos nossos hábitos laborais, familiares e sociais. Passámos a estar mais tempo em casa, reduzindo ou, até, abolindo os nossos contactos sociais presenciais, apoiando-nos fortemente na tecnologia para continuar a trabalhar e/ou estudar. Se a princípio pensámos que ia ser impossível. Agora já achamos quase normal. É o nosso novo normal.
As nossas crianças habituaram-se a estar sempre connosco no conforto do lar. Também elas, desde as mais novas às mais crescidas, descobriram, ou redescobriram, todo o potencial das tecnologias, usando-as bastamente para ver, ouvir, conversar, “conviver”, “socializar” com quem está longe (professores, educadores, parentes, amigos, etc.) bem como para se distraírem, relaxarem e aprenderem.
Houve um esforço generalizado das estruturas educativas para fornecer material pedagógico e promover aulas à distância com os alunos; reinventou-se a telescola; os professores apelaram à capacidade dos alunos (e dos pais) para desenvolverem trabalho autónomo; forneceram-se computadores a quem não os tinha. A tentativa de alterar o menos possível ao nível da aprendizagem das crianças é louvável, mas difícil (quase impossível) de alcançar.

Aprender implica incorporar, assimilar, tornar nosso o conhecimento. É um processo activo, dinâmico e natural. Grande parte das nossas aprendizagens fazem-se quase sem darmos por elas: experimentando, repetindo, errando; observando, imitando, questionando os outros. Precisamos dos outros para aprender quase tudo. Os outros são o nosso modelo, o nosso desafio, o nosso contraponto, o nosso apoio, a nossa motivação. Aprender e ensinar é uma partilha constante, que enriquece mestre e discípulo e implica, para ser verdadeira, marcante e gratificante, um contacto de proximidade, de afecto e intimidade.
A escola, lugar de muitas aprendizagens, só faz sentido “ao vivo”. A palavra escola deriva de SCHOLÉ (grego) e SCHOLA (latim) e, em ambas as línguas, significa “discussão ou conferência”, mas também “folga e ócio”. Está subjacente a ideia de que as aprendizagens se fazem em conjunto e de forma agradável. O ser humano é um animal social que precisa dos outros para o seu desenvolvimento global e equilíbrio psíquico.
Há que ultrapassar os (legítimos) receios que sentimos. Devolvamos, o quanto antes, a escola e a vida às nossas crianças.
Maria João Faria (psicóloga do CPBESA)
“Construamos diques de coragem para conter a correnteza do medo” (Martin Luther King)
Voltemos ao medo porque ele nunca nos deixou. Dentro de nossas casas, junto das nossas famílias, tentámos esquecê-lo, empurrando-o lá para fora (junto com os nossos sapatos). “A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais forte e mais antigo de todos os medos é o medo do desconhecido” (H.P. Lovecraft). Este vírus é o nosso desconhecido – não o vemos, não sabemos onde está, não o controlamos. Tomou-nos um sentimento de impotência que nos tornou inseguros, hesitantes, receosos. Sem nos darmos conta, através de gestos, expressões faciais, interjeições, movimentos do corpo, demonstramos e transmitimos ao outro a ansiedade e o medo que nos invadiu.
As crianças são especialistas em captar e absorver sensações e emoções exprimidas não-verbalmente. Podemos repetir com convicção que “vai ficar tudo bem”, mas, se o nosso corpo hesita, a mensagem que passa é ambígua, promovendo insegurança e medo nas crianças. Só conseguiremos transmitir confiança e ajudar as crianças a ultrapassar os seus medos se aprendermos antes a assumir os nossos e a lidar com eles. “Todos os homens têm medo; quem não tem medo não é normal” (Jean Paul Sartre). O medo possui uma função adaptativa ao longo do desenvolvimento da espécie humana; alerta e protege de eventuais perigos. É uma resposta natural a um estímulo físico ou imaginado que representa uma ameaça ao nosso bem estar e/ou segurança. Esta resposta natural inclui aspectos cognitivos, emocionais, fisiológicos e comportamentais. Ao aprendermos a observá-los e analisá-los, encontraremos formas de os dominar. Como disse Nelson Mandela, “a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas que conquista esse medo”.

Nas crianças os medos funcionam como tarefas de desenvolvimento; ao ultrapassá-los elas reforçam a sua autonomia e estrutura emocional. A maioria dos medos infantis estão relacionados com situações que a criança sente que não controla e vão variando com a idade. Entre os 2 e os 6 anos os medos mais comuns são o medo do escuro, o medo de monstros e de fantasmas, o medo de “ladrões” e de “maus” e o medo de perda/separação. Mais tarde, entre os 6 e os 11 anos, surgem os medos de catástrofes naturais, de guerras, de doenças e epidemias, bem como o medo da exposição (ex.: falar em público).
Devemos estar alerta para os sinais que as crianças nos dão:
…pois elas nem sempre falam abertamente do que estão a sentir. Desvalorizar, minimizar ou ignorar a situação não ajuda a resolvê-la. Ao invés, empolá-la, torná-la o centro das conversas ou dramatizá-la vai dificultar a resolução do problema.
É fundamental ajudar as crianças a vencer e controlar o medo e, acima de tudo, a não ter medo de ter medo; ensinemos-lhes que a melhor maneira de o ultrapassar não é evitá-lo, mas sim enfrentá-lo, “não fazendo o que ele manda”; devemos desobedecer ao medo, contrariando-o. É importante proporcionar às crianças experiências de confronto com as situações geradoras de medo, ensinando-lhes “truques” que as façam sentir-se tranquilas (respirar fundo e pausadamente, descontrair os músculos fazendo exercícios de relaxamento, afugentar pensamentos “maus”, substituindo-os por outros agradáveis) e simultaneamente oferecer-lhes o nosso apoio físico (abraço, dar a mão, afagar a cabeça) e verbal (“estás a conseguir”, “estou aqui contigo para te ajudar”).
Cada vitória sobre o medo deve ser comemorada e valorizada. À medida que as crianças se tornam mais capazes e confiantes, deixemo-las lidar sozinhas, com autonomia e coragem, com os seus medos. Estaremos sempre por perto e vigilantes, mas não nos esqueçamos que a nossa função é dar as ferramentas. Ensinemo-las a pescar em vez de lhes dar o peixe.
Maria João Faria (psicóloga do CPBESA)
O encerramento das escolas, jardins-de-infância e creches levou a que as crianças do nosso país ficassem completamente isoladas dos seus pares, naturais agentes de socialização. Deixou-os também distantes do contacto presencial com professores, educadores, treinadores, familiares e outras forças sociais vivas que ajudam a formá-las como cidadãos. O incentivo ao uso massivo do digital (televisão, telemóveis, tablets, computadores) com todas as novidades tecnológicas tais como as plataformas Skype, Zoom, Google Classroom, tenta colmatar a falta real e inalienável do contacto proximal. O sucesso deste esforço é duvidoso e certamente assimétrico, sendo muito condicionado pelo acesso desigual aos meios digitais bem como à idade das crianças.
Quanto mais baixa é a faixa etária, mais difícil é promover aprendizagens intermediadas por máquinas. A capacidade de concentração, absorção de conteúdos e utilização de ferramentas digitais é diminuta; as crianças pequenas são eminentemente práticas e sensoriais, têm o pensamento e a acção intimamente relacionados – a capacidade de abstracção e o pensamento hipotético-dedutivo adquirem-se tardiamente.

Neste sentido, é essencial promover e estimular:
“AO VIVO E A CORES” tudo se torna mais real, mais presente e duradouro. Ajudemos as nossas crianças a não perderem a magia das “coisas vivas e a sério”.
Maria João Faria (psicóloga do CPBESA)
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